O Dia em que o Berimbau Começou a Conversar — História Infantil

Menino negro Pedro ouvindo um berimbau ao lado de Mestre André e outras crianças numa roda de capoeira

Resumo da história: Pedro acredita que o berimbau da roda de capoeira quer lhe contar um segredo. Depois de conhecer seus diferentes sons, ele sonha com um instrumento falante, uma praça silenciosa e uma apresentação musical muito especial. Uma aventura divertida sobre escuta, imaginação, amizade e cultura afro-brasileira.

O Dia em que o Berimbau Começou a Conversar

Naquela terça-feira, Pedro acordou com um som que não saía da sua cabeça.

— Dimm… domm… dimm-domm! — cantarolou enquanto calçava um pé de meia.

— Essa música é nova? — perguntou a mãe.

— É do berimbau da roda de capoeira! — respondeu ele. — Parece que o instrumento está conversando comigo.

Pedro tinha seis anos, um sorriso cheio de janelinhas entre os dentes e uma imaginação que não tirava férias. Na tarde anterior, visitara com a turma o espaço cultural do bairro. Lá, Mestre André mostrou instrumentos usados na capoeira: berimbau, pandeiro e atabaque.

Pedro havia ficado olhando especialmente para o berimbau. Era um arco comprido, com uma corda de metal e uma cabaça presa perto da parte de baixo. Mestre André tocou, aproximando e afastando a cabaça do corpo.

Dimm… domm…

— Parece que ele faz pergunta e resposta! — exclamou Pedro.

— A música da capoeira tem muito de escuta e resposta — explicou o mestre. — E o toque do berimbau ajuda a conduzir a roda.

Agora, em casa, Pedro tentava imitar aquele som com a boca. Enquanto escovava os dentes, fazia “dimm”. Enquanto procurava o tênis, fazia “domm”. Quando a mãe serviu o mingau, ele anunciou:

— Dimm-domm! O café da manhã está começando!

A mãe riu tanto que quase derramou o suco.

Na escola, Pedro contou sua descoberta para a amiga Malu.

— Tenho certeza de que aquele berimbau queria me contar um segredo.

Malu inclinou a cabeça.

— Será que ele sabe onde foi parar meu apontador roxo?

— Não sei. Mas vou perguntar quando voltar lá!

Na sexta-feira, as crianças foram novamente ao espaço cultural. Havia uma pequena oficina de capoeira, e Mestre André preparava os instrumentos com cuidado.

Pedro chegou perto, colocou as mãos para trás e cochichou:

— Bom dia, senhor Berimbau. Lembra de mim?

Mestre André ouviu e sorriu.

— Ele não fala com palavras, Pedro. Mas você pode descobrir muita coisa prestando atenção ao som.

O menino concordou. Observou enquanto o mestre mostrava a verga de madeira, a corda, a cabaça, a baqueta e a pequena pedra usada para variar os sons.

— A cabaça é como a boca dele? — perguntou Pedro.

— Ela ajuda a mudar a ressonância do som. Vamos experimentar ouvindo primeiro o som mais aberto e depois o mais fechado?

Dimm… domm…

Pedro fechou os olhos. Um som parecia longo como um corredor. O outro, curtinho como um pulo de sapo.

Malu ouviu também.

— Para mim, ele está dizendo: “Cadê meu chapéu?”

— E para mim: “Não tenho chapéu!” — respondeu Pedro.

Os dois começaram a rir.

Depois da oficina, Mestre André fez uma proposta:

— Na apresentação de amanhã, cada grupo vai ajudar com um pedacinho da música. Alguns vão cantar. Outros vão bater palmas. Quem quiser pode aprender a acompanhar o toque.

Pedro levantou a mão tão rápido que quase acertou a própria testa.

— Eu quero!

Naquela noite, porém, algo estranho aconteceu. Pedro sonhou que estava sozinho numa praça enfeitada de bandeirinhas. No meio dela, o berimbau de Mestre André flutuava a poucos centímetros do chão.

— Dimm! — fez o instrumento.

Pedro deu um passo para trás.

— Você fala mesmo!

— Domm! — respondeu o berimbau.

— Desculpe, não entendi.

O instrumento repetiu três sons, cada vez mais depressa.

Pedro pensou. Talvez fosse um pedido de água? Buscou um copo na barraca da praça.

— Dimm-domm!

Talvez quisesse um travesseiro? Pedro trouxe uma almofada listrada.

— Domm-dimm!

Talvez estivesse procurando um amigo? Pedro chamou a galinha de um quintal vizinho, mas ela correu atrás de uma borboleta e esqueceu completamente o assunto.

— Conversar com você é muito difícil! — reclamou o menino, já sem fôlego.

Então um vento suave fez as bandeirinhas balançarem. Pedro percebeu outra coisa: a praça estava silenciosa demais. Não havia risadas, palmas nem cantoria. O berimbau parecia esperar alguma coisa.

— Ah! Você quer companhia!

Na mesma hora, Malu apareceu do outro lado da praça, segurando um pandeiro do tamanho de um prato. Atrás dela vieram outras crianças.

— Podemos tocar com você? — perguntaram.

Pedro fez sinal para que todos se aproximassem.

Malu sacudiu o pandeiro. Bento começou a bater palmas. Uma menina inventou uma cantiga curtinha:

— Roda, roda, meu coração,

quem escuta entra na canção!

O berimbau respondeu:

Dimm… domm… dimm-domm!

Pedro quis tocar mais alto que todo mundo. Bateu palmas tão depressa que perdeu o ritmo. As outras crianças pararam, confusas.

O berimbau silenciou.

— Opa… acho que atrapalhei a conversa — murmurou Pedro.

Malu lhe deu um sorriso.

— Então vamos ouvir primeiro. Depois a gente responde.

Pedro respirou fundo. Esperou o berimbau tocar. Entrou com duas palmas suaves. Malu acompanhou. Dessa vez, nenhum som precisava vencer o outro.

Foi quando o berimbau fez um último “domm” e se transformou numa enorme bolha de sabão!

— Uaaaaau! — Pedro gritou.

A bolha subiu, subiu, subiu… e estourou bem no alto da praça.

Ploc!

Pedro abriu os olhos. Estava na cama, com o travesseiro abraçado e o cobertor enrolado nos pés.

A mãe apareceu à porta.

— Sonho animado?

— Muito! Eu tentei dar água para um berimbau e ele virou uma bolha de sabão!

A mãe piscou, surpresa.

— Essa foi uma conversa diferente.

No dia seguinte, a roda estava cheia de familiares e amigos. Mestre André explicou que a capoeira é uma expressão cultural afro-brasileira, construída ao longo da história por pessoas negras no Brasil, e que seus instrumentos, cantos e movimentos merecem ser conhecidos e respeitados.

Pedro ficou ao lado de Malu. Assim que ouviu o toque, lembrou-se do sonho.

Dimm… domm…

Esperou.

Bateu duas palmas no momento combinado.

As crianças cantaram. Os adultos acompanharam. Mestre André sorriu sem interromper a música.

Quando a apresentação acabou, Pedro se aproximou do berimbau, que descansava apoiado na parede.

— Acho que finalmente entendi seu segredo — cochichou.

— E qual é? — perguntou Mestre André, que tinha chegado bem devagar.

Pedro pensou um pouquinho.

— Se todo mundo só falar, ninguém escuta. Mas, quando um toca e o outro responde, a música aparece.

O mestre assentiu.

— Você descobriu algo importante para uma roda de capoeira e para muitas conversas também.

Malu, que estava perto, apontou para o instrumento:

— Então pergunta agora sobre meu apontador roxo!

Pedro começou a rir.

— Malu! O berimbau entende de música, não de material escolar!

Na saída, uma surpresa os esperava: o apontador estava no bolso lateral da mochila de Malu.

— Achei! — comemorou ela.

Pedro arregalou os olhos.

— Dimm-domm! Mistério resolvido!

E os dois foram embora rindo, enquanto o último toque do berimbau ainda parecia dançar no ar.

Fim.

Perguntas sobre a história

  1. Qual instrumento despertou a curiosidade de Pedro?
  2. Quem ensinou Pedro a ouvir os diferentes sons do berimbau?
  3. Que objetos Pedro ofereceu ao berimbau no sonho?
  4. Por que o berimbau ficou em silêncio quando Pedro bateu palmas muito depressa?
  5. O que Malu sugeriu para as crianças conseguirem tocar juntas?
  6. O que aconteceu com o berimbau no final do sonho?
  7. O que Pedro aprendeu sobre ouvir e responder durante a música?

Para imaginar: Se um instrumento pudesse falar no seu sonho, que história você gostaria que ele contasse?

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 Dicas de contação de história para a Educação Infantil

  1. Apresente o instrumento. Mostre uma fotografia de um berimbau e explique, com palavras simples, que ele possui uma corda, uma cabaça e uma baqueta.
  2. Brinque com os sons. Alterne “dimm” e “domm” e peça às crianças que percebam como os sons mudam. Use a voz para imitar, sem afirmar que esse é o som exato do instrumento.
  3. Dramatize o sonho. Na parte da água, do travesseiro e da galinha, faça pequenas pausas para que a turma tente adivinhar o que o berimbau quer.
  4. Experimente a escuta em grupo. Combine uma sequência curta de palmas: primeiro a professora, depois a turma. Troquem os papéis para exercitar a atenção.
  5. Converse sobre a cultura afro-brasileira. Explique que a capoeira reúne movimento, música e canto e tem uma história ligada à população negra no Brasil. Evite reduzir a capoeira a uma dança.
  6. Acolha diferentes respostas. Na pergunta sobre o segredo do berimbau, valorize o que as crianças compreenderem da narrativa, sem exigir uma única moral.

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