O Segredo da Cabaça Encantada — História Infantil

Menina negra Lia conhecendo o xequerê de cabaça com a tia Joana e o primo Bento

Resumo da história: Lia encontra um instrumento feito de cabaça na casa da tia Joana e decide criar uma música que parece chuva. Mas uma surpresa durante o ensaio ameaça a apresentação da família. Com o primo Bento e um gato muito atrapalhado, ela descobre novos sons, amizade e a alegria de inventar música juntos.

O Segredo da Cabaça Encantada

Na casa da tia Joana havia um armário que vivia fazendo barulho.

Não era um armário assustador. Era um armário de música! Lá dentro moravam um pandeiro, dois chocalhos, um agogô e uma cabaça grande, da cor de mel.

Toda vez que Lia visitava a tia, encostava o ouvido na porta.

— Tem algum instrumento acordado aí?

Naquela manhã, ouviu um barulhinho: chá… chá-chá!

Lia abriu a porta devagar. A cabaça estava quietinha, bem no alto da prateleira.

— Tia Joana! A cabaça falou comigo!

Joana apareceu com um pano de prato no ombro.

— Falou? E o que ela disse?

— Chá-chá! Talvez esteja pedindo chá!

A tia riu tanto que precisou se apoiar na mesa.

— Essa cabaça não bebe chá, Lia. Ela faz música. Venha, vou mostrar.

Joana retirou um instrumento feito de cabaça seca, coberto por uma rede de contas. Chamava-se xequerê. Explicou que instrumentos desse tipo têm raízes em tradições musicais da África Ocidental e também estão presentes em expressões musicais afro-brasileiras.

— Posso experimentar?

— Pode, com cuidado. A rede de contas produz som quando se movimenta contra a cabaça.

Joana segurou o instrumento e fez um movimento leve.

Chá… chá-chá!

Lia abriu um sorriso enorme.

— Parece chuva no telhado!

— E se eu tocar mais depressa?

Chá-chá-chá-chá!

— Agora parece uma chuva correndo atrás de um guarda-chuva!

A tia entregou o xequerê nas mãos de Lia e ensinou como segurá-lo. A menina experimentou primeiro devagar. Depois, com um pouco mais de firmeza.

Chá… chá… CHÁ!

Foi quando Bento, o primo mais novo, entrou na sala usando uma bacia na cabeça.

— Ouvi dizer que está chovendo aqui dentro!

— É música, Bento! — explicou Lia.

Bento tirou a bacia e olhou o instrumento.

— Então por que essa fruta está usando colar?

— Não é fruta para comer. É uma cabaça seca transformada em instrumento. E essas contas ajudam a criar o som — respondeu Joana.

Bento ficou pensativo.

— Se ela usa colar, pode ir a uma festa?

A tia olhou o relógio. Naquela tarde, os vizinhos se reuniriam no quintal para uma pequena apresentação de músicas e brincadeiras.

— Pode, sim. Mas temos de ensaiar.

Lia deu um pulinho.

— Vamos fazer a música da chuva!

Os primos começaram a experimentar ritmos. Lia fazia chá-chá com o xequerê; Bento batia suavemente com as mãos numa caixa vazia; tia Joana marcava o tempo com palmas.

Tum… chá… tum-tum… chá!

A música ia muito bem, até que o gato Pipoca resolveu ajudar. Saltou sobre a caixa de Bento, que escorregou pelo chão com um barulhão.

PLOC! RRRRÁ!

— Pipoca! Você entrou antes da hora! — reclamou Bento.

O gato se espreguiçou. Depois deitou dentro da caixa, como se fosse dono da orquestra.

Lia começou a rir.

— Acho que ele quer ser o maestro!

A tia bateu uma palma.

— Se queremos tocar juntos, precisamos combinar os momentos de cada som. Primeiro ouvimos. Depois respondemos.

Ela fez um ritmo bem simples:

Tum… chá… tum… chá!

Lia repetiu. Bento repetiu. Até Pipoca ficou em silêncio por alguns segundos — o que, para um gato daquele, já era uma grande colaboração.

Mas, na hora de guardar o instrumento para o ensaio final, Lia percebeu uma coisa terrível.

A rede de contas estava presa na alça de uma sacola, e uma das pontinhas havia se soltado.

— Tia! Estraguei o xequerê!

Joana examinou com atenção.

— Você não estragou. Uma amarração se soltou. Vamos guardar o instrumento e consertar com calma antes de tocar de novo.

Lia abaixou os olhos.

— A festa vai ficar sem chuva.

Bento, que nunca gostava de ficar triste por muito tempo, teve uma ideia.

— Podemos fazer uma chuva com as mãos!

Ele esfregou uma palma na outra.

Fshhh… fshhh…

Depois deu tapinhas leves nas pernas.

Plic… plic… plic…

Lia ergueu a cabeça.

— E os dedos podem fazer as primeiras gotinhas!

A tia sorriu.

— Uma boa música pode nascer de muitos sons. Vamos testar.

Os três começaram com um silêncio enorme. Então vieram os dedos batendo de leve nas mãos. Depois, as palmas esfregadas. Por último, as batidas nas pernas, crescendo como uma chuva de verão.

Plic… plic… fshhhh… tum-tum-tum!

Pipoca levantou as orelhas e correu para debaixo da cadeira.

— Ele acreditou! — cochichou Bento.

No fim da tarde, o quintal se encheu de vizinhos. Havia crianças sentadas num tapete, avós em cadeiras e uma mesa com frutas cortadas.

Tia Joana explicou que apresentariam uma brincadeira musical inspirada nos sons da chuva e mostrou o xequerê, agora guardado para o reparo.

— Este instrumento nos deu a ideia inicial. Hoje vamos mostrar que também podemos fazer música com o próprio corpo.

Lia começou sozinha, fazendo gotinhas com os dedos.

Bento entrou com os tapinhas nas pernas.

Joana juntou as palmas.

O público escutou, acompanhou e logo apareceu uma grande tempestade de sons delicados.

Quando a música terminou, todos aplaudiram. Dona Celina, a vizinha, perguntou:

— E quando o xequerê estiver pronto, podemos ouvir a voz dele também?

— Podemos! — respondeu Lia. — Ele tem uma voz linda, parecida com a chuva.

Alguns dias depois, tia Joana mostrou a rede consertada e testou o instrumento com cuidado. Lia ouviu o som conhecido.

Chá… chá-chá!

A menina se aproximou.

— Agora descobri o segredo da cabaça encantada.

— Qual segredo? — perguntou a tia.

— Ela não é encantada porque faz magia sozinha. É porque ensina a gente a inventar música junto!

Bento apareceu correndo com a mesma bacia na cabeça.

— E eu descobri outra coisa!

— O quê? — perguntou Lia.

— Se a música de chuva começar, já estou preparado!

Os três caíram na gargalhada. E, lá no cantinho, Pipoca deu um miado comprido, como quem pedia para participar da próxima apresentação.

Fim.

Perguntas sobre a história

Após a leitura, converse com as crianças e incentive respostas espontâneas.

  1. Que instrumento Lia encontrou no armário da tia Joana?
  2. Que som o xequerê lembrava para Lia?
  3. Como Bento apareceu na sala quando ouviu o instrumento?
  4. O que aconteceu quando o gato Pipoca entrou no ensaio?
  5. Por que Lia e a tia precisaram guardar o xequerê antes da festa?
  6. Como a família conseguiu criar a música da chuva sem usar o instrumento?
  7. Qual segredo Lia disse ter descoberto no final?

Para imaginar: Que outro som da natureza vocês gostariam de transformar em música?

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Dicas de contação de história para a Educação Infantil

  1. Apresente a cabaça e o xequerê. Mostre uma fotografia de um xequerê e explique que a cabaça, depois de seca e preparada, pode fazer parte de instrumentos musicais.
  2. Brinque com os sons. Use as onomatopeias “chá-chá”, “plic-plic” e “tum-tum” para que as crianças participem sem interromper o enredo.
  3. Interprete os personagens. Faça Lia soar curiosa, Bento bem brincalhão e tia Joana paciente. A fala de Bento com a bacia pode ser especialmente divertida.
  4. Crie a chuva com o corpo. Comece com estalos suaves dos dedos, siga com palmas esfregadas e batidas leves nas pernas. Combine um sinal para todos pararem.
  5. Explore o momento do problema. Quando a amarração se soltar, pause e pergunte: “Como podemos fazer música enquanto o instrumento é consertado?”
  6. Contextualize a cultura com precisão. Explique que o xequerê tem raízes em tradições musicais da África Ocidental e também aparece em contextos afro-brasileiros. Evite apresentá-lo como instrumento de toda a África.

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