
Resumo da história: Caio quer fazer um retrato do avô Dito para uma exposição na escola, mas encontra um desafio: nenhum lápis sozinho parece reproduzir o tom de pele dele. Ao observar fotografias, luzes e sombras, o menino descobre novos jeitos de desenhar as pessoas que ama. Uma aventura com arte, humor e valorização da diversidade.
O Pequeno Artista e os Tons de Pele
Na segunda-feira, Caio chegou à escola com uma notícia importante: tinha ganhado uma caixa de quarenta e oito lápis de cor.
— Quarenta e oito! — repetiu, abrindo a tampa com cuidado. — Acho que consigo desenhar o mundo inteiro!
Caio gostava de desenhar coisas que ninguém esperava. Já havia feito uma bicicleta com asas, uma chuva de pipocas e uma girafa usando botas de borracha. Mas, naquela manhã, a professora Helena anunciou um desafio diferente.
— Na sexta-feira, teremos a exposição “Retratos da Nossa Turma”. Cada criança vai desenhar a si mesma e alguém de quem gosta muito.
Caio bateu palmas. Ia desenhar o avô Dito, que contava piadas ruins e fazia o melhor bolo de fubá do bairro.
Ele começou pela cabeça redondinha, depois desenhou os óculos, o bigode e as sobrancelhas que pareciam duas lagartas dormindo. Mas, quando chegou a hora de pintar o rosto, parou.
Pegou um lápis bege. Olhou para o papel. Olhou para a fotografia do avô que guardava na mochila.
— Hum… Esse não é o tom do vovô.
Experimentou um marrom bem escuro. Depois, um marrom mais claro.
— Agora parece que ele tomou banho de chocolate! — sussurrou.
A amiga Malu espiou por cima da mesa.
— Seu avô tem bigode de chocolate?
Caio deu uma risada.
— Não! É que não estou conseguindo encontrar a cor dele.
Malu mostrou seu próprio desenho. Tinha feito o rosto da irmã e pintado as bochechas de rosa tão forte que pareciam duas maçãs.
— A minha também ficou diferente — confessou.
A professora se aproximou.
— Vocês estão descobrindo uma coisa interessante: a pele das pessoas tem muitos tons. Às vezes, uma cor da caixa não representa exatamente o que vemos.
— Então preciso de mais quarenta e oito lápis? — perguntou Caio, preocupado.
— Antes disso, que tal observar e experimentar?
Naquela tarde, Caio foi direto para a casa do avô Dito.
O avô estava no quintal, tentando convencer um pé de tomate a produzir mais depressa.
— Vamos, tomate! Eu já comprei até o sal!
— Vovô, preciso fazer seu retrato. Mas sua cor está fugindo da minha caixa de lápis!
Dito levantou as sobrancelhas.
— Minha cor fugiu? Será que está escondida atrás do limoeiro?
Caio riu, mas mostrou a fotografia e os lápis.
— Olha. Esse fica claro demais. Esse fica escuro demais. E esse aqui parece uma bolacha queimada.
O avô puxou duas cadeiras para perto da janela, onde havia luz natural.
— Sente aqui, artista. Vamos olhar com calma.
Caio percebeu que a pele do avô parecia mais clara onde o sol tocava sua bochecha e mais escura debaixo do queixo.
— Tem sombra! — exclamou.
— E tem luz — respondeu Dito. — Nosso rosto não é uma parede pintada com uma cor só.
Caio virou a própria mão para um lado e para o outro.
— A minha também muda um pouquinho conforme a luz!
O avô sorriu.
— Agora, olha para esta caixa de fotografias.
Havia retratos de muitas épocas. Um mostrava a bisavó Ruth usando um vestido azul. Em outro, apareciam Dito criança e seus irmãos, todos abraçados diante de um portão de madeira.
— Esse menininho é você? — perguntou Caio.
— Sou eu, com um joelho ralado e uma vontade enorme de brincar.
— E por que sua irmã tem a pele de um tom um pouco diferente?
— Porque, mesmo na mesma família, as pessoas podem ter tons de pele diferentes. Nossa família negra tem muitos rostos, cabelos e histórias.
Caio colocou três fotografias lado a lado. Reparou nos olhos, nas expressões e nos sorrisos.
— Acho que vou precisar de mais papel também!
No dia seguinte, a professora organizou uma oficina de retratos. Sobre as mesas, colocou papéis, espelhos e lápis de várias tonalidades. Havia também materiais para sobrepor cores e criar sombras.
— Ninguém precisa encontrar um lápis perfeito — explicou. — Vamos observar com respeito e fazer escolhas de artistas.
Caio tentou usar marrom-claro e, por cima, um pouquinho de outro tom. No primeiro teste, apertou tanto o lápis que o papel rasgou.
— Ih! Abri uma janela no rosto do vovô!
Malu levou a mão à boca para segurar a risada.
— Pelo menos ele vai poder olhar a paisagem!
Caio pegou outra folha. Dessa vez, passou as cores de leve. Fez pequenas camadas, deixando a luz do papel aparecer em alguns pontos.
— Está melhor! — disse.
Mas ainda faltava uma coisa. Uma coisa importante.
Na quinta-feira, ele voltou à casa do avô com o desenho quase pronto.
Dito colocou os óculos e examinou cada detalhe.
— Meu bigode está ótimo. Meus óculos também. Mas você esqueceu minha pinta aqui perto da orelha!
Caio arregalou os olhos.
— É verdade!
Acrescentou a pintinha. Depois, desenhou o avental de cozinheiro que o avô sempre usava.
— Pronto! Agora é você!
O avô fingiu procurar algo no retrato.
— Tem certeza? Não vejo o cheiro do meu bolo de fubá.
— Vovô! Cheiro não dá para desenhar!
Os dois riram tanto que a avó precisou perguntar o que estava acontecendo.
Na sexta-feira, a exposição ficou pronta no corredor da escola. Havia retratos de crianças com tranças, cabelos lisos, cachos, óculos, sardinhas e sorrisos de todos os tamanhos. Cada desenho tinha seu jeito próprio.
Caio colocou o retrato do avô ao lado do seu. Os dois usavam o mesmo sorriso tortinho.
Malu se aproximou.
— Você conseguiu encontrar a cor certa?
Caio pensou antes de responder.
— Não encontrei uma cor só. Usei várias. E descobri a pinta escondida do vovô!
A professora observou os trabalhos.
— Vocês perceberam como cada retrato conta uma história? Não existe apenas uma cor de pele, nem um único jeito de representar uma pessoa.
Nesse instante, a porta do corredor se abriu. O avô Dito apareceu carregando uma travessa coberta com um pano.
— Trouxe uma obra de arte para a exposição!
Caio correu para recebê-lo.
— Vovô, é seu retrato em tamanho gigante?
— Melhor: bolo de fubá!
O cheiro delicioso se espalhou pelo corredor. Caio olhou para o desenho, depois para o avô, e teve uma ideia.
Pegou um lápis amarelo, desenhou um pedacinho de bolo no canto do papel e escreveu, com ajuda da professora: “Vovô Dito, das mil cores e do bolo mais gostoso do mundo”.
O avô deu uma gargalhada.
— Agora, sim! Esse retrato ficou com a minha cara!
E Caio descobriu que um bom retrato não precisava copiar cada detalhe perfeitamente. Precisava ser feito com atenção, curiosidade e carinho.
Na volta para casa, abriu sua caixa de quarenta e oito lápis e contou todos outra vez.
Ainda eram quarenta e oito.
Mas, depois daquela semana, pareciam conter possibilidades infinitas.
Fim.
Perguntas sobre a história
Após a leitura, incentive as crianças a recontar os acontecimentos e compartilhar suas impressões.
- Qual era o desafio de desenho anunciado pela professora Helena?
- Quem Caio escolheu retratar e por quê?
- Por que Caio ficou em dúvida ao escolher um lápis para pintar a pele do avô?
- O que Caio percebeu quando observou o rosto do avô perto da janela?
- O que havia na caixa de fotografias do avô Dito?
- O que aconteceu quando Caio apertou o lápis com muita força?
- Qual surpresa o avô levou para a exposição da escola?
Para imaginar: Quem você gostaria de desenhar? Qual detalhe dessa pessoa não poderia faltar?
Dicas de contação de história para a Educação Infantil
- Mostre diferentes tons. Disponibilize lápis de diversos tons de pele e deixe as crianças explorarem sem impor uma única cor para representar pessoas.
- Dê vida ao avô Dito. Use uma voz divertida nas falas do avô, sobretudo na conversa com o pé de tomate e na brincadeira sobre o cheiro do bolo.
- Crie suspense na escolha dos lápis. Faça uma pausa quando Caio percebe que nenhum lápis sozinho parece suficiente e pergunte o que as crianças fariam.
- Observe luz e sombra. Com um espelho, convide a turma a observar delicadamente como a iluminação muda a aparência das cores, sem avaliar ou comparar quem é mais bonito.
- Valorize as diferenças. Comente que pessoas negras, inclusive de uma mesma família, podem ter diversos tons de pele, traços e tipos de cabelo.
- Proponha um retrato afetivo. Depois da leitura, convide as crianças a desenhar alguém importante, com atenção aos detalhes e respeito a diferentes famílias.
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