
Resumo da história: Sofia e seus colegas vão organizar uma festa para celebrar as lembranças de suas famílias. Mas quando a árvore que receberia todas as histórias cai no chão, a turma precisa encontrar uma solução. Entre cantigas, fotografias, brincadeiras e muita cooperação, as crianças descobrem que cada memória merece um lugar especial.
A Grande Festa das Nossas Raízes
Na segunda-feira, a professora Helena entrou na sala carregando uma caixa enorme. A caixa era tão grande que escondia até a ponta do seu nariz.
— Cuidado, professora! — avisou Miguel. — Tem um dragão aí dentro?
— Não, Miguel. É uma surpresa para a nossa Festa das Raízes!
Sofia, uma menina negra de seis anos que gostava de descobrir histórias, aproximou-se na ponta dos pés.
— Raízes de planta?
— Também podem ser de planta — respondeu Helena. — Mas hoje vamos falar das nossas raízes: pessoas, lembranças e tradições que fazem parte da história de cada família.
A professora abriu a caixa. Lá dentro havia envelopes, folhas coloridas, barbantes, uma pequena moldura vazia e uma árvore recortada em papelão. A árvore tinha galhos compridos, mas nenhuma folha.
— Nossa missão é encher esta árvore de histórias — explicou.
— E de mangas! — sugeriu Miguel.
— Quem sabe de desenhos de mangas? — concordou a professora, sorrindo.
Cada criança levou para casa um envelope com um convite: conversar com alguém da família ou com uma pessoa importante de sua convivência e escolher uma lembrança para compartilhar. Podia ser uma fotografia, uma cantiga, uma receita, uma brincadeira ou uma história contada de memória.
Sofia saiu da escola pensando no que levaria. Em casa, perguntou à mãe:
— Qual é a nossa lembrança mais importante?
A mãe olhou para a estante, para as fotografias e para uma panela que descansava na cozinha.
— Temos muitas. Por que não pergunta à sua avó?
Naquela noite, a vovó Cida chegou com uma bolsa cheia de coisas. Tirou de dentro uma fotografia antiga, um lenço florido e uma colher de madeira.
— Vovó, você trouxe a cozinha inteira? — Sofia brincou.
— Quase! — respondeu a avó. — Essa colher já mexeu muitas panelas de comida boa.
Sofia pegou a fotografia. Nela, uma menina de tranças sorria ao lado de uma mulher que segurava a mesma colher.
— É você?
— Sou eu, pequena. E esta era a minha mãe. Ela me ensinou uma cantiga que cantávamos enquanto preparávamos o almoço.
Vovó Cida começou a cantarolar uma melodia curta, que ela lembrava da infância. Sofia acompanhou batendo os dedos na mesa.
— Posso levar a música para a festa?
— Pode. Mas leve também a história de quem cantava comigo — disse a avó.
No dia seguinte, Sofia contou a novidade para os amigos. Pedro levaria uma fotografia do avô que consertava bicicletas. Luana levaria a receita de um bolo que sua família fazia aos domingos. Ravi mostraria uma brincadeira ensinada por sua tia. E Miguel… Miguel anunciou que levaria um dinossauro de borracha.
— Sua família tinha dinossauro? — perguntou Pedro.
— Não — respondeu Miguel. — Mas meu pai conta histórias de dinossauro antes de dormir. Isso vale?
A professora pensou por um instante.
— Vale como lembrança de vocês dois. E você também pode perguntar sobre uma brincadeira que seu pai gostava quando era criança.
Miguel saiu determinado a investigar.
Na quarta-feira, a turma começou a preparar a festa. As folhas da árvore eram feitas de papel, e em cada uma seria escrito o nome de uma pessoa e uma lembrança.
Sofia desenhou a vovó Cida com tranças compridas. Pedro desenhou uma bicicleta com rodas maiores que a casa. Luana desenhou um bolo tão alto que quase não coube na folha.
Mas, quando a professora tentou colocar a árvore em pé, aconteceu uma tragédia de papelão.
Crrrrrec!
Um dos galhos dobrou. A árvore caiu para o lado e espalhou folhas pelo chão.
— A árvore ficou com sono! — gritou Miguel.
Algumas crianças riram. Outras ficaram preocupadas. Sofia pegou o desenho da avó antes que alguém pisasse nele.
— Professora, não podemos perder nossas histórias!
— Nem vamos — respondeu Helena. — Vamos pensar numa solução juntos.
Pedro teve a primeira ideia:
— Podemos colocar a árvore na parede!
Luana completou:
— E prender os galhos com fita!
Sofia observou o monte de folhas espalhadas.
— E se cada folha tivesse uma fitinha? Assim podemos pendurar uma de cada vez.
A turma trabalhou em equipe. No fim da tarde, a árvore já estava firme na parede e cheia de folhas coloridas. Havia histórias de famílias grandes, pequenas, de avós, pais, mães, tios e outras pessoas queridas. Algumas lembranças eram antigas; outras tinham acontecido na semana anterior.
Na sexta-feira, chegou o dia da festa. As famílias entraram na sala e pararam diante da árvore.
— Olha, mãe! A sua receita! — disse Luana.
— Olha, vovó! Você virou folha! — exclamou Sofia.
Vovó Cida riu tanto que precisou ajeitar os óculos.
A professora convidou todos a sentar em roda. Antes das apresentações, mostrou um mapa do Brasil e outro da África.
— Muitas histórias das famílias brasileiras têm ligações com povos indígenas, africanos, europeus e de outras partes do mundo — explicou. — A África é um continente com muitos países, povos e culturas diferentes. Pessoas africanas e seus descendentes contribuíram de inúmeras maneiras para a formação do Brasil, apesar da violência da escravidão. Conhecer e respeitar essas histórias é importante.
Sofia ouviu com atenção. Lembrou-se de uma conversa com a avó sobre músicas e receitas que atravessavam gerações. Pensou que uma lembrança podia viajar por muito tempo sem sair do coração das pessoas.
Pedro foi o primeiro a apresentar. Sua fotografia mostrava o avô numa oficina, com graxa nas mãos e um sorriso enorme.
— Ele me ensinou a encher pneu de bicicleta — contou, orgulhoso. — Mas só quando tem um adulto perto!
Luana falou da receita do bolo. Ravi ensinou os colegas a brincar de uma maneira que havia aprendido com a tia. E Miguel apareceu com o dinossauro na mão e uma novidade:
— Meu pai brincava de fazer sombras de animais na parede! Ontem ele me ensinou a fazer um jacaré.
Miguel juntou as mãos diante da luz e tentou fazer o jacaré. Mas a sombra parecia mais um pato com dentes.
A turma inteira caiu na gargalhada.
Quando chegou sua vez, Sofia segurou a fotografia da vovó Cida.
— Esta é minha avó quando era pequena. Ela aprendeu uma cantiga com a mãe dela e me ensinou também.
A menina começou a cantar, baixinho. Sua voz tremia um pouco. Vovó Cida cantou junto. Depois, a mãe de Sofia se aproximou e acompanhou as duas.
Sofia olhou para a avó. Não sabia explicar como uma música tão pequena conseguia encher a sala daquele jeito.
Quando terminaram, houve palmas. Mas a maior surpresa veio depois.
Uma senhora que assistia à festa levantou a mão.
— Minha mãe também cantava uma cantiga parecida! — contou. — Mas com outra melodia.
— Então existem versões diferentes? — perguntou Sofia.
— Existem, sim. As pessoas guardam e transformam as músicas ao longo do tempo — explicou a professora.
No fim da manhã, a turma foi até a árvore para colocar a última folha. A professora havia deixado um espaço vazio bem no centro.
— Esta folha representa o que construímos juntos hoje — disse.
— Já sei! — anunciou Sofia. — Pode escrever: “Nossas histórias têm lugar aqui”.
A professora escreveu a frase. As crianças acrescentaram pequenos desenhos: uma bicicleta, um bolo, uma colher, mãos fazendo sombras e até um dinossauro verde.
Quando todos já estavam indo embora, Miguel ficou olhando para a árvore.
— Professora, será que ano que vem podemos fazer de novo?
— Por quê?
— Porque minha família ainda tem muitas histórias. E eu só trouxe uma!
Sofia segurou a mão da avó e concordou:
— A minha também.
No caminho de casa, perguntou:
— Vovó, hoje à noite você pode me ensinar outra cantiga?
— Posso. Mas você vai ter que me ensinar alguma coisa também.
Sofia pensou, pensou… e sorriu.
— Posso ensinar o jacaré-pato do Miguel!
A avó não entendeu nada. Mas, quando Sofia começou a fazer sombras engraçadas na parede, as duas riram tanto que quase esqueceram a hora do jantar.
E assim, entre cantigas antigas e brincadeiras novas, mais uma lembrança entrou para a história daquela família.
Fim.
Perguntas sobre a história
Após a leitura, incentive as crianças a relembrar os acontecimentos e compartilhar suas ideias.
- O que havia dentro da caixa que a professora Helena levou para a sala?
- O que cada criança precisava escolher para a Festa das Raízes?
- Quem ensinou uma cantiga antiga para Sofia?
- O que aconteceu com a árvore de papelão antes da festa?
- Como as crianças conseguiram resolver o problema da árvore?
- Que brincadeira Miguel aprendeu com o pai?
- Que frase Sofia sugeriu para a última folha da árvore?
Para imaginar: Que lembrança ou brincadeira você gostaria de colocar em uma folha da árvore da turma?
Dicas de contação de história para a Educação Infantil
- Apresente a árvore das lembranças. Mostre uma árvore desenhada em papel e pergunte quais pessoas e lembranças as crianças gostariam de representar em suas folhas.
- Interprete o humor da história. Faça uma voz muito séria para o anúncio do dinossauro de Miguel e uma pausa antes da revelação do “jacaré-pato”.
- Explore os sons. Faça o barulho “crrrrrec” quando o galho de papelão dobrar e convide a turma a imaginar uma maneira de consertá-lo.
- Acolha diferentes histórias familiares. Deixe que cada criança cite uma pessoa importante de sua convivência, sem exigir fotos ou informações pessoais da família.
- Converse sobre contribuições afro-brasileiras. Explique em linguagem simples que o Brasil recebeu contribuições culturais de muitos povos africanos e seus descendentes, respeitando a diversidade entre eles.
- Construa uma pequena árvore coletiva. Ofereça folhas de papel para desenhar lembranças, brincadeiras e saberes. A atividade pode ser feita sem exposição de dados pessoais.
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